Convite Para o Círio Fluvial
Apesar de ter nascido praticamente em beira de rio e de ter morado parte de minha infância no Marajó, eu não aprendi a nadar, talvez pelo nervosismo de minha mãe que nos super protegia, falo isso porque de meus oito irmãos, talvez apenas dois sabiam a prática da natação, e isto apenas para ficar boiando alguns minutos até vim o socorro.
Pois bem, me encontro com meu cunhado e com minha irmã na ante véspera do Cirio de Nossa Senhora de Nazaré, e ela me faz um convite:
- Vamos Davi, é tranqüilo, não tem perigo, olha, já fui varias vezes no círio fluvial , tu precisas ir para ver de perto, ainda tem mais é uma balsa, não tem perigo nenhum, arranjei quatro convites um para mim um para o Zé, um para ti e outro para a Nete; não tive saída, mesmo porque a Nete, minha esposa, já tinha dado a palavra final, um pouco egoísta da parte dela diga-se de passagem, uma vez que é eximia nadadora.
O dia fatídico chegou,eu já me levantei mal humorado, tentei enrolar, para perder a viagem, porem inútil a tentativa, minha irmã e o meu cunhado José Edmilson, já estavam buzinando na frente da casa. Confesso que entrei no carro como se fosse para o cadafalso, já pressentindo, que aquele dia seria torturante.
Ao chegar na balsa já tinha uma fila de pessoas para entrar, e ao embarcar recebi das mãos de duas recepcionistas uma toalhinha com a gravura de Nª Srª de Nazaré, um livreto com hinos, e um recipiente descartável tipo aquelas merendeiras que levávamos para a escola, contendo uma maçã, um pãozinho com queijo, um pacotinho de biscoito e uma caixinha de suco, me senti no holocausto, indo para o campo de concentração.
Ao entrar na balsa, aumentou a minha preocupação ao me deparar com inúmeras cadeiras enfileiradas, e como meio de descobrir quantas pessoas mais ou menos se fariam presentes, fiz uma conta básica, multipliquei as cadeiras da vertical com as da horizontal e cheguei a conclusão que só sentados estariam 540 pessoas. Notei que na parte de trás da balsa haviam montado um altar, ai conclui que seria celebrada uma missa durante a viagem, percorri com o olhar e avistei dois padres e uma banda musical, comecei a ficar mais apreensivo quando um dos padres alcançou o microfone e nos falou em alto e bom som:
- Irmãos, se estamos aqui nesta balsa, é por que Deus nos quer juntos por algum motivo, alguma coisa ele está nos reservando. Estas palavras caíram como uma premonição, e meu coração disparou, falei com meus botões, meu Deus será hoje o meu dia! a minha hora!, será que estou destinado a morrer nesta imensidão de água, olhei no relógio eram 8:30 da manhã, e apesar do dia claro e dos fogos que estouravam alegremente, o dia para mim estava completamente fechado. Me sentei em umas das cadeiras e fiquei apreensivo e confesso até com medo de rezar, temeroso de atrair mais rapidamente a vontade de Deus. O padre das palavras premonitórias, pega o microfone, fala alguma coisa com os músicos, estes dão uns acordes e o Padre começa a cantar para o meu desespero o hino que está em primeiro lugar no hit parade dos velórios: “Se as águas do mar da vida, quiserem te afogar, segura na mão de Deus e vai”. Já me senti afogado no fundo do Guajará, e pensei: é o fim, não tem escapatória, é hoje que nós vamos acertar as contas lá em cima, e continuei: meu Deus do céu porque eu embarquei nessa balsa, poderia estar em casa tranqüilo apenas assistindo pela televisão, a minha esposa me oferece um biscoito da “maletinha” dela, só balanço a cabeça recusando, não tenho vontade de comer de falar, apenas de ficar sentado esperando a hora fatal.
O outro Padre resolve cantar também, e para confirmar o presságio, canta o segundo lugar no hit parade dos velórios, claro: “Amigos para sempre é o que nós devemos ser na primavera ou qualquer das estações, ai eu senti que tinha chegado o momento da partida.
Ao começar os preparativos para a missa, fomos convidados pelo Padre da primeira premonição para assisti-la, recusei prontamente esta missa de corpo presente, me resignaria com a de sétimo dia, me levantando andei para a frente da balsa, ai vi o lado profano do círio, enfileirados vários freezers abarrotados de cerveja; e depois da décima latinha, já estava me considerando o príncipe submarino, ou no mínimo um Cezar Cielo da vida.
“O Céu pode Esperar”.
Davi Paes Figueiredo

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