quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Convite Para o Círio Fluvial


Apesar de ter nascido praticamente em beira de rio e de ter morado parte de minha infância no Marajó, eu não aprendi a nadar, talvez pelo nervosismo de minha mãe que nos super protegia, falo isso porque de meus oito irmãos, talvez apenas dois sabiam a prática da natação, e isto apenas para ficar boiando alguns minutos até vim o socorro.
Pois bem, me encontro com meu cunhado e com minha irmã na ante véspera do Cirio de Nossa Senhora de Nazaré, e ela me faz um convite:
- Vamos Davi, é tranqüilo, não tem perigo, olha, já fui varias vezes no círio fluvial , tu precisas ir para ver de perto, ainda tem mais é uma balsa, não tem perigo nenhum, arranjei quatro convites um para mim um para o Zé, um para ti e outro para a Nete; não tive saída, mesmo porque a Nete, minha esposa, já tinha dado a palavra final, um pouco egoísta da parte dela diga-se de passagem, uma vez que é eximia nadadora.
O dia fatídico chegou,eu já me levantei mal humorado, tentei enrolar, para perder a viagem, porem inútil a tentativa, minha irmã e o meu cunhado José Edmilson, já estavam buzinando na frente da casa. Confesso que entrei no carro como se fosse para o cadafalso, já pressentindo, que aquele dia seria torturante.
Ao chegar na balsa já tinha uma fila de pessoas para entrar, e ao embarcar recebi das mãos de duas recepcionistas uma toalhinha com a gravura de Nª Srª de Nazaré, um livreto com hinos, e um recipiente descartável tipo aquelas merendeiras que levávamos para a escola, contendo uma maçã, um pãozinho com queijo, um pacotinho de biscoito e uma caixinha de suco, me senti no holocausto, indo para o campo de concentração.
Ao entrar na balsa, aumentou a minha preocupação ao me deparar com inúmeras cadeiras enfileiradas, e como meio de descobrir quantas pessoas mais ou menos se fariam presentes, fiz uma conta básica, multipliquei as cadeiras da vertical com as da horizontal e cheguei a conclusão que só sentados estariam 540 pessoas. Notei que na parte de trás da balsa haviam montado um altar, ai conclui que seria celebrada uma missa durante a viagem, percorri com o olhar e avistei dois padres e uma banda musical, comecei a ficar mais apreensivo quando um dos padres alcançou o microfone e nos falou em alto e bom som:
- Irmãos, se estamos aqui nesta balsa, é por que Deus nos quer juntos por algum motivo, alguma coisa ele está nos reservando. Estas palavras caíram como uma premonição, e meu coração disparou, falei com meus botões, meu Deus será hoje o meu dia! a minha hora!, será que estou destinado a morrer nesta imensidão de água, olhei no relógio eram 8:30 da manhã, e apesar do dia claro e dos fogos que estouravam alegremente, o dia para mim estava completamente fechado. Me sentei em umas das cadeiras e fiquei apreensivo e confesso até com medo de rezar, temeroso de atrair mais rapidamente a vontade de Deus. O padre das palavras premonitórias, pega o microfone, fala alguma coisa com os músicos, estes dão uns acordes e o Padre começa a cantar para o meu desespero o hino que está em primeiro lugar no hit parade dos velórios: “Se as águas do mar da vida, quiserem te afogar, segura na mão de Deus e vai”. Já me senti afogado no fundo do Guajará, e pensei: é o fim, não tem escapatória, é hoje que nós vamos acertar as contas lá em cima, e continuei: meu Deus do céu porque eu embarquei nessa balsa, poderia estar em casa tranqüilo apenas assistindo pela televisão, a minha esposa me oferece um biscoito da “maletinha” dela, só balanço a cabeça recusando, não tenho vontade de comer de falar, apenas de ficar sentado esperando a hora fatal.
O outro Padre resolve cantar também, e para confirmar o presságio, canta o segundo lugar no hit parade dos velórios, claro: “Amigos para sempre é o que nós devemos ser na primavera ou qualquer das estações, ai eu senti que tinha chegado o momento da partida.
Ao começar os preparativos para a missa, fomos convidados pelo Padre da primeira premonição para assisti-la, recusei prontamente esta missa de corpo presente, me resignaria com a de sétimo dia, me levantando andei para a frente da balsa, ai vi o lado profano do círio, enfileirados vários freezers abarrotados de cerveja; e depois da décima latinha, já estava me considerando o príncipe submarino, ou no mínimo um Cezar Cielo da vida.
“O Céu pode Esperar”.
Davi Paes Figueiredo

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A DEDADA SALVADORA
As vezes as coisas não parecem ser com são, nem tão ruins como parecem, ou então como diz aquele velho ditado, há males que vem para o bem, e é em cima destas filosofias de boteco que arrimo a minha mais nova história.
Há tempos atrás surgiu em Abaetetuba, uma banda espetacular chamada os Muiraquitãs, banda especializada em tocar o ritmo paraense conhecido como carimbo, a referida banda de repente alcançou sucesso em todo o Estado e dificilmente não recebiam convites para tocar em cidades próximas, devido a isso amealhou milhares de fãs, dentre esses milhares de fãs tinha o Joãozinho berchoara, e como todos que nascem na localidade de Berchor nas illhas de Abaetetuba, são pessoas trabalhadoras comerciantes natos, alegres, brincalhões e sobretudo barulhentos e espirituosos.
Joãozinho, era seguidor da Banda os Muiraquitans, não no Twiter que naquele tempo não existia, era seguidor de não perder um show onde quer que fossem.
A banda através do Clariomar e do croner do conjunto, Cavalo de aço, tinha fechado contrato para tocar na cidade de Ig. Miri, e Joãozinho Berchoara como sempre já tinha esquematizado sua ida junto com a banda, gostava de ir junto porque dava mais status. “Status” era uma palavra que ele adorava falar, dizia que era chique. 
Ao chegar em Igarapé Miri, foram recebidos calorosamente pelo povo que já se aglomerava na praça, Joãozinho, logo pegou uma mesa próxima do palco, assim tomaria aquela gelada, sem perder o show.
Às onze hora em ponto o show começou, e a banda para esquentar o público iniciou com a música intitulada o mambo do mapará, música que fez o Joãozinho Berchoara se levantar agarrar uma morena e sair dançando pelo salão. Joãozinho era exímio dançarino. 
Ao acabar o show, Joãozinho entretido com a morena da dança, não viu a banda toda subir em uma caçamba basculante, veículo cedido para transportar a banda, e ao ver o veículo se movimentar saiu correndo e num impulso pendurou-se na traseira do veículo, quando inesperadamente alguém da cidade de Igarapé Miri veio por trás e aproveitando estar Joãozinho com as duas mãos ocupadas lhe deu uma senhora dedada, Joãozinho com o susto largou da caçamba, perdendo a carona uma vez que o veiculo seguiu em frente perdendo-se na escuridão.
Joãozinho desconsolado, rogava inúmeras pragas ao autor da dedada, não se conformava em ter perdido a oportunidade de voltar com a banda para Abaetetuba, quando alguém que estava em um jeep Toyota lhe ofereceu carona, dizendo que iria para Abaetetuba, e se quisesse o levaria, Joãozinho aceitou imediatamente o convite.
Ao Chegar na curva do Tijuquaquara, João Zinho deparou-se com uma cena dantesca, a caçamba que trazia a banda estava virada, varias pessoas mortas, outras feridas jogadas no asfalto, Joãozinho desceu do jeep com as mão na cabeça não acreditando naquela cena em sua frente, então incontinente voltou-se para do dono do jeep e disse: - Meu Deus! Meu Deus, meu amigo, era para mim estar nessa caçamba se não fosse uma dedada que me deram, me faz o seguinte, me leva de volta em Igarapé Miri pelo amor de Deus que eu quero dar a bunda prá esse cara.


Davi Figueiredo