O Conto do Vigário
Aqui
em Abaetetuba pelos idos de 1964, muitos rapazes de nossa sociedade ingressaram
no seminário em Belém do Pará no propósito de viverem uma vida sacerdotal e
celibatária, muitos influenciados pelas próprias famílias católicas e
conservadoras, estes não deram muito certo largaram a batina pelo primeiro rabo
de saia que encontraram, somente alguns que carregavam na alma a vocação
sacerdotal seguiram em frente. Estou
falando isso porque senti na pele um desses exemplos que não deram certo.
Certo
dia minha avó por parte de mãe, muito católica por sinal, tanto que era da
ordem das Filhas de Maria, do Apostolado de Nª Srª de Conceição, do Apostolado
do Sagrado Coração de Jesus, da Ordem de São Francisco, da Ordem de São
Benedito e o do círculo de oração, anunciou: - Neste domingo eu convidei para um
almoço aqui em casa a Maruquita do Manelogenio e o seu filho Ticó que está
estudando para padre em Belém, eu quero todo mundo arrumado esperando os nossos
convidados, afinal de contas argumentou, ele vai ser um emissário de Deus aqui
na terra.
No
domingo a casa estava animada, minha avó tinha contratado duas cozinheiras para
reforçar no preparo do almoço, o cardápio tinha de tudo, macarronada, maniçoba,
pato no tucupi, galinha a cabidela e coisa e tal, até me lembro que tive uma
briga com outros meus irmãos por causa da raspa da panela de calda de açúcar do
pudim.
Antes
quero descrever a casa que morávamos na época, ficava onde hoje se encontra o
prédio Figueiredo, era um casarão com telhas de barro todo em madeira, com
aproximadamente oito janelas que davam para um saguão lateral, na frente um pequeno pátio que
chamávamos de varandim, uma escada em concreto de quatro degraus ornamentava a
entrada que dava para o lado da praça Nª Srª da Conceição.
Pois
bem, ao meio dia estávamos no pátio juntamente com a minha avó, todos
perfilados esperando os convidados. Ao meio dia em ponto, surgiram do lado da praça
a Tia Maruquita, (como gostava de ser chamada) de braços dados com um rapaz
vestido com uma batina bege impecável, e que vez ou outra cumprimentava com um
aceno circunspecto as pessoas que passavam.
A
minha expectativa aumentava ao passo em que eles se aproximavam da casa, afinal
de contas era um emissário de Deus segundo minha avó, ao subirem a escadinha
que antecedia o pátio os meus olhos estavam fixos naquela pessoa de batina que
tinha o privilegio ou talvez a missão de representar Deus aqui na terra, tanto
é que não prestei atenção quando minha avó ao meu lado falou baixinho – toma bença dele, ao não
atender, fui instado novamente por minha avó já com os dentes cerrados imitando
um sorriso, – “tãma bençã dele”!, não entendi essas palavras mastigadas, ai
veio a terceira convocação esta com um coque rápido e preciso na cabeça, toma
bença dele!!, sentindo uma dor ardente
na moleira, estendi a mão e com lágrimas nos olhos e a voz de choro disse: –
Berrença padre, e ele – Deus te abençoe meu filho.
Aquela
benção não me resignou muito, a cabeça doía e com os olhos cheio de lágrimas
pensei em não almoçar como meio de protesto, porem a fome e o aroma que os
pratos produziam fizeram eu mudar de idéia. O prejuízo seria maior.
Ao
sermos chamados para o almoço, fomos contidos por minha avó e minha mãe para
que deixássemos o Padre Ticó escolher o seu lugar, depois fomos silenciosamente
ocupando outras cadeiras.
Então
este uniu as mãos em prece elevou os olhos para um quadro da Santa Ceia que
ornava a parede em frente à mesa e ofereceu aquele repasto a Deus e a todas as
pessoas necessitadas, logo após foi servido o almoço. Minha avó puxava conversa
com o padre, com relação aos seus estudos no seminário e este solícito, com um
olhar sereno e meigo, igual o olhar daquele anjinho que está nos pés da imagem
de Nª Srª da Conceição, respondia a todas as perguntas, sem deixar de dar
generosas garfadas na macarronada.
Após
o almoço, na despedida, abençoou toda a família e compenetrado fez uma oração a pedido de minha avó seguido
de um coro de amem respondido pelos
presentes e saiu com sua mãe, desta vez rumo as ruas da cidade, talvez para fazer a
digestão ou para dar uma volta e matar as saudades..
Ao
passar por uma determinada rua, segundo relato choroso da tia Maruquita no dia
seguinte, foi chamado por vários colegas que tomavam batida de limão no boteco do Moacir, e que
estavam se preparando para saírem no sujo (naquele tempo chamávamos de bôbo)
pelas ruas da cidade, já que era época de carnaval, nesse momento foram
rechaçados por Ticó, que argumentou que sua vida mudara e que estava totalmente
voltada para a Igreja e seus Sacramentos, apesar dos apelos e dos argumentos
quase convincentes dos amigos para tomar só um golinho da melhor batida de
limão da cidade, seguiu em frente, se
despedindo de cabeça erguida para o orgulho de sua mãe.
Ao
chegar em sua casa alegou que teria que voltar para fazer uma visita à Igreja
Matriz, e não sei por que cargas d’água, fez o mesmo caminho de volta, e ao
chegar em frente do boteco do Moacir, novamente seus amigos o chamaram, desta
vez com mais ímpeto, devido aos vapores
etéreos do Alcool, - Vamos Ticó só umazinha!, Não vai fazer mal!, Pelos teus
amigos!, Entra aqui que a gente faz a bandeira!, Ninguém vai saber de nada!,
Deixa de ser orgulhoso! Com estes e outros argumentos, Ticó pegou o copo e deu
um golinho, ai veio os papos – como é lá no seminário?, Um gole, tu não sentes saudades daqui? Outro
gole, deixa eu te contar a última!, Mais um gole, conclusão quatro horas da
tarde, ouve-se um barulho de tambor, fizemos aquela gritaria em casa, lá vem o
bôbo!, Lá vem o bôbo!, Corremos para a janela e para o nosso espanto vimos vários rapazes sujos de maizena, o Paulo
Tribi, com o seu inconfundível tambor de coro de jibóia, cantando – Madureira
chorou, Tum dum Tum dum, Madureira chorou de dor tumdumtumdumtumdum, e na frente comandando o
espetáculo, para nosso assombro, com a
batina toda suja de lama o Padre Ticó,
sambando, virando salto mortal e fazendo piruetas diversas em plena
avenida D. Pedro II.
A
mesa ainda estava sendo desarrumada, as cozinheiras sendo pagas por minha avó e
a minha cabeça ainda latejava pelo cascudo recebido. Procurei
um pretexto para a dor que sentia e para o galo que estava teimando em nascer
na minha cabeça, então arrumei um alento, o de que nem tudo estava perdido,
afinal de contas o almoço tinha sido uma delicia, e a Santa Igreja Católica
livre de Ticó graças a batida de limão
do Moacir, e do tambor de couro de jibóia do Paulo Tribi.
Davi
Paes Figueiredo
