quarta-feira, 7 de março de 2012

O Conto do Vigário


                                 
Aqui em Abaetetuba pelos idos de 1964, muitos rapazes de nossa sociedade ingressaram no seminário em Belém do Pará no propósito de viverem uma vida sacerdotal e celibatária, muitos influenciados pelas próprias famílias católicas e conservadoras, estes não deram muito certo largaram a batina pelo primeiro rabo de saia que encontraram, somente alguns que carregavam na alma a vocação sacerdotal seguiram em frente. Estou falando isso porque senti na pele um desses exemplos que não deram certo.

Certo dia minha avó por parte de mãe, muito católica por sinal, tanto que era da ordem das Filhas de Maria, do Apostolado de Nª Srª de Conceição, do Apostolado do Sagrado Coração de Jesus, da Ordem de São Francisco, da Ordem de São Benedito e o do círculo de oração,  anunciou: - Neste domingo eu convidei para um almoço aqui em casa  a Maruquita  do Manelogenio e o seu filho Ticó que está estudando para padre em Belém, eu quero todo mundo arrumado esperando os nossos convidados, afinal de contas argumentou, ele vai ser um emissário de Deus aqui na terra.

No domingo a casa estava animada, minha avó tinha contratado duas cozinheiras para reforçar no preparo do almoço, o cardápio tinha de tudo, macarronada, maniçoba, pato no tucupi, galinha a cabidela e coisa e tal, até me lembro que tive uma briga com outros meus irmãos por causa da raspa da panela de calda de açúcar do pudim.

Antes quero descrever a casa que morávamos na época, ficava onde hoje se encontra o prédio Figueiredo, era um casarão com telhas de barro todo em madeira, com aproximadamente oito janelas que davam para um saguão  lateral, na frente um pequeno pátio que chamávamos de varandim, uma escada em concreto de quatro degraus ornamentava a entrada que dava para o lado da praça Nª Srª da Conceição.

Pois bem, ao meio dia estávamos no pátio juntamente com a minha avó, todos perfilados esperando os convidados. Ao meio dia em ponto, surgiram do lado da praça a Tia Maruquita, (como gostava de ser chamada) de braços dados com um rapaz vestido com uma batina bege impecável, e que vez ou outra cumprimentava com um aceno circunspecto as pessoas que passavam.

A minha expectativa aumentava ao passo em que eles se aproximavam da casa, afinal de contas era um emissário de Deus segundo minha avó, ao subirem a escadinha que antecedia o pátio os meus olhos estavam fixos naquela pessoa de batina que tinha o privilegio ou talvez a missão de representar Deus aqui na terra, tanto é que não prestei atenção quando minha avó ao meu lado  falou baixinho – toma bença dele, ao não atender, fui instado novamente por minha avó já com os dentes cerrados imitando um sorriso, – “tãma bençã dele”!, não entendi essas palavras mastigadas, ai veio a terceira convocação esta com um coque rápido e preciso na cabeça, toma bença dele!!,  sentindo uma dor ardente na moleira, estendi a mão e com lágrimas nos olhos e a voz de choro disse: – Berrença padre, e ele – Deus te abençoe meu filho.

Aquela benção não me resignou muito, a cabeça doía e com os olhos cheio de lágrimas pensei em não almoçar como meio de protesto, porem a fome e o aroma que os pratos produziam fizeram eu mudar de idéia. O prejuízo seria maior.

Ao sermos chamados para o almoço, fomos contidos por minha avó e minha mãe para que deixássemos o Padre Ticó escolher o seu lugar, depois fomos silenciosamente ocupando outras cadeiras.

Então este uniu as mãos em prece elevou os olhos para um quadro da Santa Ceia que ornava a parede em frente à mesa e ofereceu aquele repasto a Deus e a todas as pessoas necessitadas, logo após foi servido o almoço. Minha avó puxava conversa com o padre, com relação aos seus estudos no seminário e este solícito, com um olhar sereno e meigo, igual o olhar daquele anjinho que está nos pés da imagem de Nª Srª da Conceição, respondia a todas as perguntas, sem deixar de dar generosas garfadas na macarronada.

Após o almoço, na despedida, abençoou toda a família e compenetrado  fez uma oração a pedido de minha avó seguido de um coro de  amem respondido pelos presentes  e saiu  com sua mãe, desta vez  rumo as ruas da cidade, talvez para fazer a digestão ou para dar uma volta e matar as saudades..

Ao passar por uma determinada rua, segundo relato choroso da tia Maruquita no dia seguinte, foi chamado por vários colegas que tomavam  batida de limão no boteco do Moacir, e que estavam se preparando para saírem no sujo (naquele tempo chamávamos de bôbo) pelas ruas da cidade, já que era época de carnaval, nesse momento foram rechaçados por Ticó, que argumentou que sua vida mudara e que estava totalmente voltada para a Igreja e seus Sacramentos, apesar dos apelos e dos argumentos quase convincentes dos amigos para tomar só um golinho da melhor batida de limão da cidade, seguiu em frente,  se despedindo de cabeça erguida para o orgulho de sua mãe.

Ao chegar em sua casa alegou que teria que voltar para fazer uma visita à Igreja Matriz, e não sei por que cargas d’água, fez o mesmo caminho de volta, e ao chegar em frente do boteco do Moacir, novamente seus amigos o chamaram, desta vez com mais ímpeto, devido  aos vapores etéreos do Alcool, - Vamos Ticó só umazinha!, Não vai fazer mal!, Pelos teus amigos!, Entra aqui que a gente faz a bandeira!, Ninguém vai saber de nada!, Deixa de ser orgulhoso! Com estes e outros argumentos, Ticó pegou o copo e deu um golinho, ai veio os papos – como é lá no seminário?,  Um gole, tu não sentes saudades daqui? Outro gole, deixa eu te contar a última!, Mais um gole, conclusão quatro horas da tarde, ouve-se um barulho de tambor, fizemos aquela gritaria em casa, lá vem o bôbo!, Lá vem o bôbo!, Corremos para a janela e para o nosso espanto vimos  vários rapazes sujos de maizena, o Paulo Tribi, com o seu inconfundível tambor de coro de jibóia, cantando – Madureira chorou, Tum dum Tum dum, Madureira chorou de dor  tumdumtumdumtumdum, e na frente comandando o espetáculo, para nosso assombro,  com a batina toda suja de lama o Padre Ticó,  sambando, virando salto mortal e fazendo piruetas diversas em plena avenida D. Pedro II.

A mesa ainda estava sendo desarrumada, as cozinheiras sendo pagas por minha avó e a minha cabeça ainda latejava pelo cascudo recebido. Procurei um pretexto para a dor que sentia e para o galo que estava teimando em nascer na minha cabeça, então arrumei um alento, o de que nem tudo estava perdido, afinal de contas o almoço tinha sido uma delicia, e a Santa Igreja Católica livre de Ticó  graças a batida de limão do Moacir, e do tambor de couro de jibóia do Paulo Tribi.

                                                                       Davi Paes Figueiredo