ABAETETUBACANA
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
PERSONAGENS DE ABAETETUBA
O vendedor de jornais “DENTE”, auto-intitulado jornalista
era analfabeto.
Andava pelas ruas arborizadas de mangueiras e ameixeiras, gritando as
manchetes. Uma delas: “FILHO ESPANCA O PAI E MOSTRA O PAU PRA MÃE...”
O carregado “CEARÁ” ficava
possesso quando era apelidado de “ Ceará, Orelha Grossa” e retrucava aos
berros: “ORELHA GROSSA É A PUTA QUE PARIU”. “É A TUA MÃE, FILHO DUMA PUTA”. “TEU PAI É
CORNO’. Etc. Certa ocasião ao se ajoelhar e, concomitantemente, se benzer de
frente para o Cristo, alguém passou de bicicleta e gritou: “... Ceará, orelha
grossa”. Sem interromper as mesuras,
Ceara retrucou: “Orelha grossa é a... etc. etc. etc.”
O vendedor de picolés, ASSIS, andava pelas ruas arborizadas
de mangueiras e ameixeiras, com uma caixa na cabeça, gritando: “OLHA O PICOLÉ”.
“COMPRE PICOLÉ”. “PICOLÉ GELADO, MEU PATRÃO ME DEU ORDEM PARA NÃO VENDER FIADO”.
“PRINCIPALMENTE PRA QUEM ESTÁ DESEMPREGADO.” Etc.
O vendedor de “mutamba e olho de quina”, “CHICO DOIDO”
andava pelas ruas arborizadas de mangueiras e ameixeiras, tinha fregueses
certos (papai era um deles). “seu Chico” dizia que mutamba era muito boa para
os cabelos: evitava queda e embranquecimento precoce e deixava brilhosos etc. Papai usava e passava
nos meus cabelos encaracolados. “Seu Chico” tinha razão. Após se despedir do
freguês, cantava: “Adeus, Corina que já vou embora. Calça de veludo e bunda de
fora”
Penso que alguns amigos, como o Benicio Lobato Cruz, Antônio
Afonso de Souza (“Molenga), Lial Bentes, Alcir Figueiredo, Davi Figueiredo etc. nunca usaram “mutamba”. Talvez tenham usado
como lubrificante.
ROUBANDO PÃO
NO INÍCIO dos anos 70, ainda havia casas em Abaetetuba, nas
quais pães eram entregues de madrugada. Eu era professor de várias disciplinas,
inclusive Educação Física no GBPB, onde não havia quadra de esportes*. Saía com
os alunos de madrugada para praticar esportes e outras atividades físicas nas ruas,
praças, campos de futebol, estrada principal etc. (àquela época andava-se sem
medo, diuturnamente, pela cidade). Numa dessas madrugadas, deparamos com o
entregador de pão na casa da D. Lucimar. Após colocar a sacola de pães na
janela, bateu na parede pra avisar o morador e saiu. O “Fran” Lopes, um dos
alunos, subiu à varanda pra “roubar” os pães. Ao pegar a sacola, a janela se abriu
e apareceu alguém. O “Fran”, já com a sacola de pão, meio sem jeito, entregou a
sacola e falou: “Taqui o pão...” .Anos
depois, “Fran” e Sandra¹ se casaram.
¹ Sandra, para quem não sabe, é filha do casal Manoel Leite
e Lucimar e irmã do “Méia”, Lourival e “Manoelzinho”
quarta-feira, 7 de março de 2012
O Conto do Vigário
Aqui
em Abaetetuba pelos idos de 1964, muitos rapazes de nossa sociedade ingressaram
no seminário em Belém do Pará no propósito de viverem uma vida sacerdotal e
celibatária, muitos influenciados pelas próprias famílias católicas e
conservadoras, estes não deram muito certo largaram a batina pelo primeiro rabo
de saia que encontraram, somente alguns que carregavam na alma a vocação
sacerdotal seguiram em frente. Estou
falando isso porque senti na pele um desses exemplos que não deram certo.
Certo
dia minha avó por parte de mãe, muito católica por sinal, tanto que era da
ordem das Filhas de Maria, do Apostolado de Nª Srª de Conceição, do Apostolado
do Sagrado Coração de Jesus, da Ordem de São Francisco, da Ordem de São
Benedito e o do círculo de oração, anunciou: - Neste domingo eu convidei para um
almoço aqui em casa a Maruquita do Manelogenio e o seu filho Ticó que está
estudando para padre em Belém, eu quero todo mundo arrumado esperando os nossos
convidados, afinal de contas argumentou, ele vai ser um emissário de Deus aqui
na terra.
No
domingo a casa estava animada, minha avó tinha contratado duas cozinheiras para
reforçar no preparo do almoço, o cardápio tinha de tudo, macarronada, maniçoba,
pato no tucupi, galinha a cabidela e coisa e tal, até me lembro que tive uma
briga com outros meus irmãos por causa da raspa da panela de calda de açúcar do
pudim.
Antes
quero descrever a casa que morávamos na época, ficava onde hoje se encontra o
prédio Figueiredo, era um casarão com telhas de barro todo em madeira, com
aproximadamente oito janelas que davam para um saguão lateral, na frente um pequeno pátio que
chamávamos de varandim, uma escada em concreto de quatro degraus ornamentava a
entrada que dava para o lado da praça Nª Srª da Conceição.
Pois
bem, ao meio dia estávamos no pátio juntamente com a minha avó, todos
perfilados esperando os convidados. Ao meio dia em ponto, surgiram do lado da praça
a Tia Maruquita, (como gostava de ser chamada) de braços dados com um rapaz
vestido com uma batina bege impecável, e que vez ou outra cumprimentava com um
aceno circunspecto as pessoas que passavam.
A
minha expectativa aumentava ao passo em que eles se aproximavam da casa, afinal
de contas era um emissário de Deus segundo minha avó, ao subirem a escadinha
que antecedia o pátio os meus olhos estavam fixos naquela pessoa de batina que
tinha o privilegio ou talvez a missão de representar Deus aqui na terra, tanto
é que não prestei atenção quando minha avó ao meu lado falou baixinho – toma bença dele, ao não
atender, fui instado novamente por minha avó já com os dentes cerrados imitando
um sorriso, – “tãma bençã dele”!, não entendi essas palavras mastigadas, ai
veio a terceira convocação esta com um coque rápido e preciso na cabeça, toma
bença dele!!, sentindo uma dor ardente
na moleira, estendi a mão e com lágrimas nos olhos e a voz de choro disse: –
Berrença padre, e ele – Deus te abençoe meu filho.
Aquela
benção não me resignou muito, a cabeça doía e com os olhos cheio de lágrimas
pensei em não almoçar como meio de protesto, porem a fome e o aroma que os
pratos produziam fizeram eu mudar de idéia. O prejuízo seria maior.
Ao
sermos chamados para o almoço, fomos contidos por minha avó e minha mãe para
que deixássemos o Padre Ticó escolher o seu lugar, depois fomos silenciosamente
ocupando outras cadeiras.
Então
este uniu as mãos em prece elevou os olhos para um quadro da Santa Ceia que
ornava a parede em frente à mesa e ofereceu aquele repasto a Deus e a todas as
pessoas necessitadas, logo após foi servido o almoço. Minha avó puxava conversa
com o padre, com relação aos seus estudos no seminário e este solícito, com um
olhar sereno e meigo, igual o olhar daquele anjinho que está nos pés da imagem
de Nª Srª da Conceição, respondia a todas as perguntas, sem deixar de dar
generosas garfadas na macarronada.
Após
o almoço, na despedida, abençoou toda a família e compenetrado fez uma oração a pedido de minha avó seguido
de um coro de amem respondido pelos
presentes e saiu com sua mãe, desta vez rumo as ruas da cidade, talvez para fazer a
digestão ou para dar uma volta e matar as saudades..
Ao
passar por uma determinada rua, segundo relato choroso da tia Maruquita no dia
seguinte, foi chamado por vários colegas que tomavam batida de limão no boteco do Moacir, e que
estavam se preparando para saírem no sujo (naquele tempo chamávamos de bôbo)
pelas ruas da cidade, já que era época de carnaval, nesse momento foram
rechaçados por Ticó, que argumentou que sua vida mudara e que estava totalmente
voltada para a Igreja e seus Sacramentos, apesar dos apelos e dos argumentos
quase convincentes dos amigos para tomar só um golinho da melhor batida de
limão da cidade, seguiu em frente, se
despedindo de cabeça erguida para o orgulho de sua mãe.
Ao
chegar em sua casa alegou que teria que voltar para fazer uma visita à Igreja
Matriz, e não sei por que cargas d’água, fez o mesmo caminho de volta, e ao
chegar em frente do boteco do Moacir, novamente seus amigos o chamaram, desta
vez com mais ímpeto, devido aos vapores
etéreos do Alcool, - Vamos Ticó só umazinha!, Não vai fazer mal!, Pelos teus
amigos!, Entra aqui que a gente faz a bandeira!, Ninguém vai saber de nada!,
Deixa de ser orgulhoso! Com estes e outros argumentos, Ticó pegou o copo e deu
um golinho, ai veio os papos – como é lá no seminário?, Um gole, tu não sentes saudades daqui? Outro
gole, deixa eu te contar a última!, Mais um gole, conclusão quatro horas da
tarde, ouve-se um barulho de tambor, fizemos aquela gritaria em casa, lá vem o
bôbo!, Lá vem o bôbo!, Corremos para a janela e para o nosso espanto vimos vários rapazes sujos de maizena, o Paulo
Tribi, com o seu inconfundível tambor de coro de jibóia, cantando – Madureira
chorou, Tum dum Tum dum, Madureira chorou de dor tumdumtumdumtumdum, e na frente comandando o
espetáculo, para nosso assombro, com a
batina toda suja de lama o Padre Ticó,
sambando, virando salto mortal e fazendo piruetas diversas em plena
avenida D. Pedro II.
A
mesa ainda estava sendo desarrumada, as cozinheiras sendo pagas por minha avó e
a minha cabeça ainda latejava pelo cascudo recebido. Procurei
um pretexto para a dor que sentia e para o galo que estava teimando em nascer
na minha cabeça, então arrumei um alento, o de que nem tudo estava perdido,
afinal de contas o almoço tinha sido uma delicia, e a Santa Igreja Católica
livre de Ticó graças a batida de limão
do Moacir, e do tambor de couro de jibóia do Paulo Tribi.
Davi
Paes Figueiredo
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Convite Para o Círio Fluvial
Apesar de ter nascido praticamente em beira de rio e de ter morado parte de minha infância no Marajó, eu não aprendi a nadar, talvez pelo nervosismo de minha mãe que nos super protegia, falo isso porque de meus oito irmãos, talvez apenas dois sabiam a prática da natação, e isto apenas para ficar boiando alguns minutos até vim o socorro.
Pois bem, me encontro com meu cunhado e com minha irmã na ante véspera do Cirio de Nossa Senhora de Nazaré, e ela me faz um convite:
- Vamos Davi, é tranqüilo, não tem perigo, olha, já fui varias vezes no círio fluvial , tu precisas ir para ver de perto, ainda tem mais é uma balsa, não tem perigo nenhum, arranjei quatro convites um para mim um para o Zé, um para ti e outro para a Nete; não tive saída, mesmo porque a Nete, minha esposa, já tinha dado a palavra final, um pouco egoísta da parte dela diga-se de passagem, uma vez que é eximia nadadora.
O dia fatídico chegou,eu já me levantei mal humorado, tentei enrolar, para perder a viagem, porem inútil a tentativa, minha irmã e o meu cunhado José Edmilson, já estavam buzinando na frente da casa. Confesso que entrei no carro como se fosse para o cadafalso, já pressentindo, que aquele dia seria torturante.
Ao chegar na balsa já tinha uma fila de pessoas para entrar, e ao embarcar recebi das mãos de duas recepcionistas uma toalhinha com a gravura de Nª Srª de Nazaré, um livreto com hinos, e um recipiente descartável tipo aquelas merendeiras que levávamos para a escola, contendo uma maçã, um pãozinho com queijo, um pacotinho de biscoito e uma caixinha de suco, me senti no holocausto, indo para o campo de concentração.
Ao entrar na balsa, aumentou a minha preocupação ao me deparar com inúmeras cadeiras enfileiradas, e como meio de descobrir quantas pessoas mais ou menos se fariam presentes, fiz uma conta básica, multipliquei as cadeiras da vertical com as da horizontal e cheguei a conclusão que só sentados estariam 540 pessoas. Notei que na parte de trás da balsa haviam montado um altar, ai conclui que seria celebrada uma missa durante a viagem, percorri com o olhar e avistei dois padres e uma banda musical, comecei a ficar mais apreensivo quando um dos padres alcançou o microfone e nos falou em alto e bom som:
- Irmãos, se estamos aqui nesta balsa, é por que Deus nos quer juntos por algum motivo, alguma coisa ele está nos reservando. Estas palavras caíram como uma premonição, e meu coração disparou, falei com meus botões, meu Deus será hoje o meu dia! a minha hora!, será que estou destinado a morrer nesta imensidão de água, olhei no relógio eram 8:30 da manhã, e apesar do dia claro e dos fogos que estouravam alegremente, o dia para mim estava completamente fechado. Me sentei em umas das cadeiras e fiquei apreensivo e confesso até com medo de rezar, temeroso de atrair mais rapidamente a vontade de Deus. O padre das palavras premonitórias, pega o microfone, fala alguma coisa com os músicos, estes dão uns acordes e o Padre começa a cantar para o meu desespero o hino que está em primeiro lugar no hit parade dos velórios: “Se as águas do mar da vida, quiserem te afogar, segura na mão de Deus e vai”. Já me senti afogado no fundo do Guajará, e pensei: é o fim, não tem escapatória, é hoje que nós vamos acertar as contas lá em cima, e continuei: meu Deus do céu porque eu embarquei nessa balsa, poderia estar em casa tranqüilo apenas assistindo pela televisão, a minha esposa me oferece um biscoito da “maletinha” dela, só balanço a cabeça recusando, não tenho vontade de comer de falar, apenas de ficar sentado esperando a hora fatal.
O outro Padre resolve cantar também, e para confirmar o presságio, canta o segundo lugar no hit parade dos velórios, claro: “Amigos para sempre é o que nós devemos ser na primavera ou qualquer das estações, ai eu senti que tinha chegado o momento da partida.
Ao começar os preparativos para a missa, fomos convidados pelo Padre da primeira premonição para assisti-la, recusei prontamente esta missa de corpo presente, me resignaria com a de sétimo dia, me levantando andei para a frente da balsa, ai vi o lado profano do círio, enfileirados vários freezers abarrotados de cerveja; e depois da décima latinha, já estava me considerando o príncipe submarino, ou no mínimo um Cezar Cielo da vida.
“O Céu pode Esperar”.
Davi Paes Figueiredo
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
A DEDADA SALVADORA
As vezes as coisas não parecem ser com são, nem tão ruins como parecem, ou então como diz aquele velho ditado, há males que vem para o bem, e é em cima destas filosofias de boteco que arrimo a minha mais nova história.
Há tempos atrás surgiu em Abaetetuba, uma banda espetacular chamada os Muiraquitãs, banda especializada em tocar o ritmo paraense conhecido como carimbo, a referida banda de repente alcançou sucesso em todo o Estado e dificilmente não recebiam convites para tocar em cidades próximas, devido a isso amealhou milhares de fãs, dentre esses milhares de fãs tinha o Joãozinho berchoara, e como todos que nascem na localidade de Berchor nas illhas de Abaetetuba, são pessoas trabalhadoras comerciantes natos, alegres, brincalhões e sobretudo barulhentos e espirituosos.
Joãozinho, era seguidor da Banda os Muiraquitans, não no Twiter que naquele tempo não existia, era seguidor de não perder um show onde quer que fossem.
A banda através do Clariomar e do croner do conjunto, Cavalo de aço, tinha fechado contrato para tocar na cidade de Ig. Miri, e Joãozinho Berchoara como sempre já tinha esquematizado sua ida junto com a banda, gostava de ir junto porque dava mais status. “Status” era uma palavra que ele adorava falar, dizia que era chique.
Ao chegar em Igarapé Miri, foram recebidos calorosamente pelo povo que já se aglomerava na praça, Joãozinho, logo pegou uma mesa próxima do palco, assim tomaria aquela gelada, sem perder o show.
Às onze hora em ponto o show começou, e a banda para esquentar o público iniciou com a música intitulada o mambo do mapará, música que fez o Joãozinho Berchoara se levantar agarrar uma morena e sair dançando pelo salão. Joãozinho era exímio dançarino.
Ao acabar o show, Joãozinho entretido com a morena da dança, não viu a banda toda subir em uma caçamba basculante, veículo cedido para transportar a banda, e ao ver o veículo se movimentar saiu correndo e num impulso pendurou-se na traseira do veículo, quando inesperadamente alguém da cidade de Igarapé Miri veio por trás e aproveitando estar Joãozinho com as duas mãos ocupadas lhe deu uma senhora dedada, Joãozinho com o susto largou da caçamba, perdendo a carona uma vez que o veiculo seguiu em frente perdendo-se na escuridão.
Joãozinho desconsolado, rogava inúmeras pragas ao autor da dedada, não se conformava em ter perdido a oportunidade de voltar com a banda para Abaetetuba, quando alguém que estava em um jeep Toyota lhe ofereceu carona, dizendo que iria para Abaetetuba, e se quisesse o levaria, Joãozinho aceitou imediatamente o convite.
Ao Chegar na curva do Tijuquaquara, João Zinho deparou-se com uma cena dantesca, a caçamba que trazia a banda estava virada, varias pessoas mortas, outras feridas jogadas no asfalto, Joãozinho desceu do jeep com as mão na cabeça não acreditando naquela cena em sua frente, então incontinente voltou-se para do dono do jeep e disse: - Meu Deus! Meu Deus, meu amigo, era para mim estar nessa caçamba se não fosse uma dedada que me deram, me faz o seguinte, me leva de volta em Igarapé Miri pelo amor de Deus que eu quero dar a bunda prá esse cara.
Davi Figueiredo
As vezes as coisas não parecem ser com são, nem tão ruins como parecem, ou então como diz aquele velho ditado, há males que vem para o bem, e é em cima destas filosofias de boteco que arrimo a minha mais nova história.
Há tempos atrás surgiu em Abaetetuba, uma banda espetacular chamada os Muiraquitãs, banda especializada em tocar o ritmo paraense conhecido como carimbo, a referida banda de repente alcançou sucesso em todo o Estado e dificilmente não recebiam convites para tocar em cidades próximas, devido a isso amealhou milhares de fãs, dentre esses milhares de fãs tinha o Joãozinho berchoara, e como todos que nascem na localidade de Berchor nas illhas de Abaetetuba, são pessoas trabalhadoras comerciantes natos, alegres, brincalhões e sobretudo barulhentos e espirituosos.
Joãozinho, era seguidor da Banda os Muiraquitans, não no Twiter que naquele tempo não existia, era seguidor de não perder um show onde quer que fossem.
A banda através do Clariomar e do croner do conjunto, Cavalo de aço, tinha fechado contrato para tocar na cidade de Ig. Miri, e Joãozinho Berchoara como sempre já tinha esquematizado sua ida junto com a banda, gostava de ir junto porque dava mais status. “Status” era uma palavra que ele adorava falar, dizia que era chique.
Ao chegar em Igarapé Miri, foram recebidos calorosamente pelo povo que já se aglomerava na praça, Joãozinho, logo pegou uma mesa próxima do palco, assim tomaria aquela gelada, sem perder o show.
Às onze hora em ponto o show começou, e a banda para esquentar o público iniciou com a música intitulada o mambo do mapará, música que fez o Joãozinho Berchoara se levantar agarrar uma morena e sair dançando pelo salão. Joãozinho era exímio dançarino.
Ao acabar o show, Joãozinho entretido com a morena da dança, não viu a banda toda subir em uma caçamba basculante, veículo cedido para transportar a banda, e ao ver o veículo se movimentar saiu correndo e num impulso pendurou-se na traseira do veículo, quando inesperadamente alguém da cidade de Igarapé Miri veio por trás e aproveitando estar Joãozinho com as duas mãos ocupadas lhe deu uma senhora dedada, Joãozinho com o susto largou da caçamba, perdendo a carona uma vez que o veiculo seguiu em frente perdendo-se na escuridão.
Joãozinho desconsolado, rogava inúmeras pragas ao autor da dedada, não se conformava em ter perdido a oportunidade de voltar com a banda para Abaetetuba, quando alguém que estava em um jeep Toyota lhe ofereceu carona, dizendo que iria para Abaetetuba, e se quisesse o levaria, Joãozinho aceitou imediatamente o convite.
Ao Chegar na curva do Tijuquaquara, João Zinho deparou-se com uma cena dantesca, a caçamba que trazia a banda estava virada, varias pessoas mortas, outras feridas jogadas no asfalto, Joãozinho desceu do jeep com as mão na cabeça não acreditando naquela cena em sua frente, então incontinente voltou-se para do dono do jeep e disse: - Meu Deus! Meu Deus, meu amigo, era para mim estar nessa caçamba se não fosse uma dedada que me deram, me faz o seguinte, me leva de volta em Igarapé Miri pelo amor de Deus que eu quero dar a bunda prá esse cara.
Davi Figueiredo
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Recordando João Amazonas
Com a anistia de 1989, os exilados que retornavam percorriam o País para falarem de suas experiências e integrarem-se às lutas que transcorriam, ainda tímidas, contra o regime militar. No campus da UFPA fui convidado para assistir palestra que o velho militante comunista João Amazonas proferiria no IEP. Interessava-me a palestra, entre outros motivos, pelas recordações das conversas que mantinha com outro velho militante, o Chile Lima, meu conterrâneo de Abaetetuba e contemporâneo de João Amazonas e Pedro Pomar da militância do PCB EM Belém. Nessas conversas, o Chile Lima falava-me das lutas daquele tempo, tendo mencionado um fato curioso. Quando o partidão decidiu que alguns militantes paraenses deveriam deslocar-se para o Sul, a escolha recaiu sobre, Pedro Pomar, João Amazonas e Chile Lima. No dia do embarque no navio que os levaria a seus destinos, o Chile Lima resolveu não viajar para ficar com sua companheira, que estava grávida.
De Belém, na semiclandestinidade, rejubilou-se com a eleição dos outros camaradas para a constituinte de 1946, um por São Paulo e outro pelo Rio de Janeiro. Ao contar esses fatos, Chile Lima deixava transparecer o orgulho daqueles camaradas e achava que sempre teria a mesma sorte se deixasse a companheira para trás. O amor por ela foi maior do que o amor pela revolução.
No dia da palestra, fui a Abaetetuba convidar o Chile para assisti-la, sendo que este não tinha dúvidas de que João Amazonas, ao vê-lo, recordaria os velhos tempos. Retornamos a Belém por volta das 14 horas. A palestra seria às 20 horas. Resolvi ir à UFPA assistir aula e, quando voltei para casa, encontrei o Chile Lima dormindo. Sobre a mesa, o que restva de uma garrafa de pinga, sobrevivente do último estoque que fiz em Abaetetuba. Foi impossível acordá-lo. Resolvi ir assim mesmo e, no final da palestra, contei a história para o João Amazonas, tendo este escrito sobre um jornal a seguinte frase: “Ao camarada Chile Lima, com um abraço do João Amazonas. Espero revê-lo em breve”. Pela manhã do dia seguinte com os protestos de Chile Lima, furioso por não te-lo acordado. Com lágrimas nos olhos, recebeu o jornal com a dedicatória e partiu de volta para Abaetetuba. O Pedro Pomar e o Chile já haviam partido, faz tempo. Agora foi-se João Amazonas. Embora eles não acreditassem, suspeito que neste momento, em algum lugar, continuem conspirando pela paz mundial, para que o povo brasileiro seja protagonista de sua própria história, por um Brasil melhor, sonho de todas as suas vidas e de milhões de brasileiros.
Antônio R. Figueiredo Cardoso
Defensor Público de Bragança
Bragança-PA
P.S: esta carta foi publicada na sábado, 17 de dezembro de 2011
Abaetetuba da Conceição
Abaetetuba de Conceição
No prazeroso tempo da boemia, às vésperas das festividades de nossa padroeira, a noite cochilava tranquilamente nos ternos braços de minha querida cidade de Abaetetuba. O dia que se foi, deixou marcas em mais um ano de dedicação e veneração à Nossa Senhora da Conceição, Santa de um povo forte e valente. Dia de festa, do círio, do pato no tucupi, do miriti, da maniçoba, da cachaçada (cachaça azulada, fabricada no engenho do Pacheco), do religioso e profano (um cedendo espaço ao outro, em função de todos).
Eu, Ney Viola, Zezé e Jeba continuavamos desafiando a calada da noite, penetrando o reto porvir da madrugada. O violão num tom alternado trocava de colo dos violeiros embriagados, fieis companheiros da solidão da rua. A praça da matriz se oferecia figurada de barracas com suas pestanas cerradas e um parque de diversão calado, talvez sonhando com o direito ao lazer das crianças pobres. Havia uma barraca que de vez em quando piscava os olhoa para nós e servia uma cerveja condicionada ao pagamento antecipado e a concordância de nossa parte de que seria "a última". E, assim iamos mantendo a nossa seresta dosada à poesia e cerveja. Conseguimos "a expulsadeira", "pé na bunda"... epa! Bofeta no cangote! O que foi ? Quem foi ? Em quem foi ? Tapa, murrada, não sei direito... fiquei zonzo só em ver o padre, representante de Deus, o padre Dante, naquele momento, bater fortemente no "tutiço"do meu parceiro e amigo Jeba que encontrava-se descontraído, tocando e cantando "Roda Viva" de Chico Buarque de Holanda. Não! Não aceitamos provocação! Afinal era um padre, um idoso e fisicamente fraco. Revidar cometeriamos pecado por desrespeito e covardia contra o protetor da Santa Madre Igreja. Além do mais, já era outro dia. A porta da igreja se encontrava escancarada ( pelo padre ) para que Nossa Senhora da Conceição pudesse receber de braços abertos seus maculados filhos. Nós, realmente nos demos conta de que talvez, o padre interpretou naquele momento, como "dante", que fossemos os Vendilhões do Templo e ele Jesus Cristo.
Creia, Mãe Santíssima Imaculada Nossa Senhora da Conceição, estavámos apenas cantando; é bem verdade: em frente da igreja.
(Adenaldo dos Santos Cardoso)
Paciência
Nos abraços inquietos do relógio
As horas se espreguiçam
Braços insistem em demonstrar
Os passos firmes do tempo
Presa às atenções pontuais das despedidas
A verdade estampa o caminhar da vida
Vida de tantas idas...
Envolta num tic-tac de muitas voltas
(Adenaldo dos Santos Cardoso)
